Arcadismo. Barroco e Classicismo

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Tuesday, September 19, 2006

BARROCO
O SURGIMENTO




O Barroco procura solucionar os dilemas de um homem que perdeu sua confiança ilimitada na razão e na harmonia, através da volta a uma intensa religiosidade medieval e da eliminação dos conceitos renascentistas de vida e arte. Em parte, isso não é atingido e as contradições prosseguiriam.

Assim:
- o Renascimento recusa os valores religiosos e artísticos da Idade Média;- o Barroco tenta inutilmente conciliar a visão medieval da vida e da arte com a visão renascentista.
Cumpre ressaltar a diferença entre o Barroco dos países protestantes e o dos países católicos. O Barroco protestante - que não nos interessa aqui - toma uma direção burguesa e secular*. Já o Barroco católico, em sintonia com a Contra-Reforma, adquire uma conotação extremamente religiosa, quando não mística.

Como era de praxe na época, os estilos artísticos dominantes nas metrópoles foram copiados nas colônias e assim o Barroco das nações ibéricas irrompe na América Latina como um transplante cultural. A matriz desse movimento radica-se na Espanha, até porque Portugal - entre 1580 a 1640 - está sob o jugo do reino vizinho.

As condições históricas espanholas são excepcionais para o desenvolvimento de um estilo artístico marcado pelo dilaceramento e pelo pessimismo. No início do século XVII, o país vive uma crise terrível: guerras perdidas na Europa, a perseguição à burguesia judaica, a ausência de indústrias, a violência da Inquisição e o colapso da agro-pecuária, dada a expulsão dos mouros que trabalhavam de maneira eficiente no campo.
Nem o ouro nem a prata, arrancados das colônias americanas, conseguem amenizar o declínio da outrora grandiosa potência. A pobreza se espalha pela nação e uma profunda religiosidade impregna o cotidiano de todas as classes sociais, da nobreza aos excluídos. Ou seja, a mesma situação de desconforto econômico e de mal-estar cultural que viria ocorrer na Bahia de Gregório de Matos Guerra, algumas décadas depois.

Neste panorama de decadência e fracasso emergem as obras de Góngora, Quevedo, Gracián e Calderón de la Barca que levarão a literatura barroca espanhola a um extraordinário patamar artístico, influenciando decisivamente poetas e prosadores latino-americanos do século XVII.


* Secular: referente ao século, à vida profana.


CARACTERÍSTICAS


* Arte da Contra-Reforma *




A ideologia do Barroco é fornecida pela Contra-Reforma. Estamos diante de uma arte eclesiástica, que deseja propagar a fé católica. Em nenhuma outra época se produz tamanha quantidade de igrejas e capelas, estátuas de santos e documentos sepulcrais. As obras de arte devem falar aos fiéis com a maior eficácia possível, mas em momento algum descer até eles. Daí o caráter solene da arte barroca. Arte que tem de convencer, conquistar, impor admiração.
Paralelamente, em quase todas as partes, a Igreja se associa ao Estado, e a arquitetura barroca, antes somente religiosa, se impõe também na construção de palácios, com os mesmos objetivos: causar admiração e temor. Arquitetura e Poder identificam-se da mesma forma que a Igreja legitima o "direito divino dos reis", isto é, o absolutismo despótico nos impérios católicos.



* Conflito entre Corpo e Alma *



A partir do Maneirismo instaura-se na arte um conflito fundamental que mesmo o Barroco não consegue equacionar de todo: o conflito entre os prazeres corpóreos e as exigências da alma. O Renascimento definira-se pela valorização do profano, do secular, pondo em voga o gosto pelas satisfações mundanas.
Frente a estas conquistas, a atitude dos intelectuais maneiristas e barrocas é extremamente complicada. Não podem renunciar ao "carpe diem"* renascentista, isto é, ao "aproveitar o dia", ao viver intensamente cada minuto. Mas não alcançam a tranqüilidade para agir assim, pois a filosofia da Contra-Reforma, antiterrena, teocêntrica, medieval, fustiga os seus cérebros, oprime os seus corações.
O dilema centra-se, portanto, na oposição vida eterna versus vida terrena; espírito versus carne. Dentro do Maneirismo e dentro do Barroco não há possibilidade de conciliação para estas antíteses. Ou se vive sensualmente a vida, ou se foge dos gozos humanos e se alcança a eternidade.
Esta tensão de elementos contrários causa uma profunda angústia, demonstrável por uma permanente dialética: o artista lança-se aos prazeres mais radicais; em seguida sente-se culpado e busca o perdão divino; mas o mundo é uma presença palpitante, levando o homem novamente aos pecados da carne. Assim, o criador barroco ora ajoelha-se diante de Deus, ora celebra as delícias da vida. Os dois exemplos pertencem a Gregório de Matos Guerra:


(A)A vós correndo vou, braços sagrados,Nessa cruz sacrossanta descobertos,Que, para receber-me, estais abertosE, por não castigar-me, estais cravados.


(B)Com vossos três amantes me confundo,Mas vendo-vos com todos cuidados,Entendo que de amante e amorosaPodeis vender amor a todo o mundo.


* Carpe diem: Frase procedente das Odes do poeta latino Horácio, no sentido de usufruir as coisas concretas: "Enquanto falamos, foge o tempo inimigo / aproveita o dia sem acreditar o mínimo no amanhã."



* A Temática do Desengano *



Principal motivo da estética barroca, o desengano (desencanto, desilusão) tem um forte substrato religioso porque está centrado na desvalorização da vida humana frente à morte e à eternidade. Manifesta-se através de certas idéias repetidas exaustivamente:
- A vida é sonho. Esta célebre expressão, título de uma peça do espanhol Calderón de la Barca, traduz o caráter ilusório da existência terrena que não passa de uma realidade aparente, de um jogo, de um teatro, já que a única e verdadeira vida é a eterna. Ou como diz o próprio Calderón:
Que é a vida? Um frenesi.Que é a vida? Uma ilusão,uma sombra, uma ficção.
- A vida é breve. A trajetória do homem guarda uma lamentável brevidade. O tempo voa, destruindo os prazeres, a beleza e a felicidade profana. Nada é estável ou permanente, tudo se desmancha, tudo muda. "Viver é trilhar curta jornada" - diz o espanhol Quevedo.
Cindido entre a alegria da existência e a preparação para a morte, o artista barroco assume uma consciência trágica da avassaladora passagem do tempo. Mas também, diante das coisas transitórias, surge a contradição: vivê-las, antes que terminem, ou renunciar ao terreno e entregar-se à eternidade? Gregório de Matos estabelece um paralelo entre a efemeridade pessoal e a permanência de um rio:
Vás-te, mas tornas a vir,eu vou, e não torno mais.Vazas, e tornas a encher:em mim tudo é fenecer,tudo em mim é acabar.
- Viver é ir morrendo aos poucos. Esta percepção de que o sopro da vida já traz em si a própria finitude surge como fonte de grande angústia para a alma barroca. Cada minuto vivido é um minuto de aproximação do abismo sombrio. A idéia da morte torna-se onipresente porque não há como esquecê-la. No texto de Quevedo o começo e o fim se confundem:
O berço e a sepultura são o princípio da vida e o seu fim. E por isso, a um juízo inconsciente, os dois têm entre si as maiores distâncias. A visão desenganada, (ao contrário) não apenas os vê como próximos, senão juntos: sendo verdade que o berço começa a ser sepultura, e a sepultura, berço da vida póstuma. Começa o homem a nascer e já a morrer; por isso, quando morre, acaba ao mesmo tempo de viver e de morrer.




* Estilo Complicado e Ornamental *




Se a harmonia formal dos clássicos correspondia ao equilíbrio interior e à sensação de segurança histórico-social, a forma conflituosa e exagerada dos barrocos traduz um estado de mal-estar causada pela oposição entre os princípios renascentistas e a ética cristã, entre a lascívia dos novos tempos e a tradição medieval. Traduz também o gosto pela agudeza do pensamento, pela artificialidade da linguagem e pelo desejo de causar assombro no leitor.
A audácia verbal não tem limites: comparações inesperadas, antíteses, paradoxos, hipérboles, inversões nas frases, palavras raras, estabelecendo um estilo retorcido, contraditório, por vezes brilhante, por vezes incompreensível e de mau gosto. Vejamos alguns exemplos:
Metáfora: Purpúreas rosas sobre Galatea / A aurora entre lírios cândidos desfolha. (Góngora) (A luz rosada do amanhecer banha o corpo branco da jovem Galatea)
Antítese: A aurora ontem me deu berço, a noite ataúde me deu. (Góngora)
Paradoxo: Amor é fogo que arde sem se ver; / é ferida que dói e não se sente; / é um contentamento descontente; / é dor que desatina sem doer. (Camões)
Jogo verbal: O todo sem a parte não é todo; / a parte sem o todo não é parte; / mas se a parte o faz todo, sendo parte, / não se diga que é parte sendo todo. (Gregório de Matos)
Por fim, assinale-se o gosto dos poetas barrocos pelo soneto, seguindo a tradição renascentista.



O BARROCO NO BRASIL



SURGIMENTO NO BRASIL


Alguns historiadores consideram Prosopopéia (1601), de Bento Manuel Teixeira, a primeira obra de tendência barroca na literatura colonial. Calcado em Os Lusíadas, do qual é uma versão mais do que anêmica, o poema celebra os feitos do capitão e governador da Capitania de Pernambuco, Jorge de Albuquerque Coelho.
O texto insípido e de louvação à autoridade não tem sinais barrocos visíveis. Custa a crer que se possa considerá-lo marca de qualquer coisa, a não ser de uma tendência de literatura de bajulação, relativamente comum em nossa história cultural. De fato, só poderemos falar em elementos barrocos na segunda metade do século XVII, com as presenças de Gregório de Matos e Antônio Vieira.



A Questão do Transplante Cultural



Ainda que alguns críticos e historiadores encontrem lampejos de genialidade e nacionalismo nas manifestações literárias dos séc. XVII, não podemos deixar de considerar a mediocridade quase que geral deste vasto período de cem anos. Poucos autores (Gregório de Matos e Antônio Vieira) resistem a uma leitura crítica.
Encontramo-nos perante textos que portam, no mais das vezes, a marca da submissão frente aos poderosos do tempo e do servilismo aos padrões estéticos portugueses. É como se o estatuto colonial se infiltrasse na literatura, dando-lhe uma feição também colonizada.
O Engenho, tela de Frans Post.
Compreende-se o fato: o sistema educacional - base de toda a atividade letrada - reproduz as idéias mais conservadoras vindas de Portugal. Este orgulhoso império afundara ainda no século XVI, perseguindo e expulsando sua burguesia empreendedora (quase toda judaica) e tornando-se um país parasitário. A partir de então o pensamento cristaliza-se no reacionarismo. A Inquisição triunfante liquida os inimigos e tudo aquilo que tiver a imagem do novo inquieta, amedronta e tende a ser condenado.
Como todo o pensamento capaz de questionar a realidade brasileira é considerado subversivo e demoníaco, ensina-se um saber abstrato, distante da realidade, centrado muito mais no brilho da oratória que no estudo dos problemas do país. Além disto, a instrução é privilégio de minorias. Apenas os filhos de senhores-de-engenho freqüentam as instituições jesuíticas.
Acrescente-se ao teor abstrato e ao elitismo de ensino, o clima aterrorizante de repressão - montado pelas autoridades lusas - e se terá um quadro aproximado da pobreza da vida intelectual, da ausência de livre debate e livre trânsito de idéias, da falta de democratização cultural.
Em tais condições se torna impossível o nascimento de uma literatura singular que nos expressasse e documentasse. Nesse século, predomina o pastiche*. Impedidos pela ordenação intelectual de atingirem uma verdadeira identidade, nossos letrados irão buscar no transplante estético e ideológico os fundamentos de seus objetos artísticos.
Imitaremos os europeus: Camões, Góngora e Quevedo. Mesmo assim, apesar da cópia contínua, já se vislumbra na literatura de um Gregório de Matos, por exemplo, alguns traços de diferenciação da literatura européia. Elementos particulares da realidade colonial passam a percorrer seus poemas, a ponto de certos estudiosos reivindicá-lo, hoje, como nosso primeiro escritor.


*Pastiche: imitação artística de baixo nível.




O BARROCO NAS ARTES PLÁSTICAS E ARQUITETURA




Outro será o destino das artes plásticas e da arquitetura. Passada a fase do Barroco baiano - suntuoso e relativamente pesado -, essa concepção artística e ideológica alcança o século XVIII, propagando-se pela província de Minas Gerais. Ali viver-se-á a grandeza de um estilo já condenado no resto do mundo. Ali, esse estilo se transformará em ostentação e competição dos novos-ricos, possibilitando a emergência de um fantástico grupo de artistas - mulatos em sua maioria - que se apropriarão dos valores visuais europeus e o refundirão, sob uma ótica brasileira.
A religiosidade festiva e exterior de uma população mais ou menos aburguesada, o gosto pelo decorativo e a concorrência das Ordens Terceiras e Irmandades, cada qual querendo ter a igreja mais bonita e ornamentada, geram um gosto coletivo pela arte e pela arquitetura que nunca mais se repetiria no Brasil.
Verdade que os trabalhos mais originais - resultantes da fusão entre o estilos eruditos e o estilo popular - acontecerão já no final do século XVIII e no início do XIX, em meio à decadência aurífera e a uma tormentosa sensação de mal-estar social. Alternando traços e linhas, mudando formas e cores, um conjunto de mulatos - Aleijadinho à frente - elabora uma arte de profunda autenticidade brasileira. E que causa espanto até os nossos dias por sua força dramática.




AUTORES BARROCOS




GREGÓRIO DE MATOS GUERRA (1636-1695)

VIDA: Gregório de Matos Guerra nasceu na Bahia, filho de família abastada e poderosa, de fortes raízes em Portugal. Fez seus primeiros estudos no colégio jesuítico da Bahia. Com dezesseis anos, ingressou na Universidade de Coimbra, onde viria a se formar em Direito. No ano de 1663, tornou-se juiz, sendo nomeado para um lugarejo do interior português. Em seguida, tornou-se juiz em Lisboa, casando-se com a filha de um importante magistrado e da qual enviuvou em 1678. Retornaria ao Brasil já com quarenta e seis anos, recebendo a tonsura (ordens eclesiásticas menores) e assim virando padre. Dois anos depois foi destituído da condição clerical por levar uma "vida sem modo de cristão".

Ainda na década de 80, casou-se outra vez, com Maria de Póvoas. Logo foi denunciado ao tribunal da Inquisição por comportamento escandaloso e por causa das sátiras. O prestígio de sua família impediu-o de ser condenado, mas em 1694, com sessenta e um anos, por seus poemas ferinos que atingiam a tudo e a todos (chamava os habitantes da Bahia de "canalha infernal"), foi desterrado para Angola. De lá pode retornar, no ano seguinte, com a condição de morar no Recife e não mais na cidade da Bahia. Nesse mesmo ano - 1695 - veio a morrer de uma malária contraída na África. Seus poemas ficaram dispersos e continuaram circulando em folhas soltas e na tradição oral, sofrendo alterações impossíveis de serem identificadas com precisão até hoje.


Gregório de Matos deixou uma obra poética vasta, desigual e, muitas vezes, de duvidosa autoria. Afrânio Peixoto fez uma edição crítica de seus poemas, mas não conseguiu recolher uma série deles, dispersos em bibliotecas ou conservados pela tradição popular. Muitos dos versos atribuídos ao poeta baiano certamente foram escritos por autores anônimos, assim como um sem número de textos criados pelo "Boca do Inferno" - alcunha pela qual era conhecido - perderam-se para sempre.
Com os poemas disponíveis, podemos apontar três matizes básicas em sua produção:


Poesia Religiosa


A oscilação da alma barroca entre o mundo terreno e a perspectiva da salvação eterna aguça-se em Gregório de Matos Guerra. Até meados do século XVIII, nenhum homem de letras pode fugir a uma educação contra-reformista, pois os jesuítas controlam todo o sistema de ensino. Desta forma, ilustrar-se só será possível dentro dos preceitos da Companhia de Jesus, o que acontece com o futuro poeta.
Por outro lado, Gregório é filho de senhores de engenho, quer dizer, dos verdadeiros senhores da terra, dos que possuem todos os direitos, inclusive o de vida e morte e que, por isso, podem exercer o estupro ou o simples domínio sexual sobre índias e escravas. Estão presentes nele, portanto, os elementos contraditórios da época: a licenciosidade moral e a posterior consciência da infâmia, seguida do arrependimento.
Na maior parte de seus poemas religiosos, o poeta se ajoelha diante de Deus, com um forte sentimento de culpa por haver pecado, e promete redimir-se. Trata-se de uma imagem constante: o homem ajoelhado, implorando perdão por seus erros, conforme podemos verificar no primeiro quarteto do soneto Buscando a Cristo:
A vós correndo vou, braços sagrados,Nessa cruz sacrossanta descobertos,Que, para receber-me, estais abertos,E, por não castigar-me, estais cravados.




Poesia Amorosa


Seguindo o modelo dos barrocos espanhóis, Gregório apresenta uma visão cindida das relações amorosas. Ora seus poemas tendem a uma concepção "petrarquista"*, isto é, à idealização dos afetos em linguagem elevada; ora a uma abordagem crua e agressiva da sexualidade em linguagem vulgar.
* Petrarquista: referente ao poeta italiano Petrarca, (1304-74), cuja obra difunde por toda a Europa o gosto pela poesia amorosa e pelo soneto.
A) O amor elevado
Exemplo dessa perspectiva é um dos sonetos dedicados a D. Ângela, provável objeto da paixão do poeta e que o teria rejeitado por outro pretendente. Observe-se o jogo de aproximações entre as palavras anjo e flor para designar a amada. Observe-se também que, ao mesmo tempo tais vocábulos possuem um caráter contraditório (anjo = eternidade; flor = brevidade). Como sugere um crítico, esta duplicidade de Angélica lança o poeta em tensão e quase desespero ("Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.")




B) O amor obsceno-satírico



Se o erotismo é a exaltação da sensualidade e da beleza dos corpos, independentemente da linguagem, que pode ser aberta ou velada; se a pornografia é a busca do sexo proibido e culpado através de imagens grosseiras e chocantes e valendo-se quase sempre de uma forma vulgar; a obscenidade situa-se noutra esfera. Ela não visa ao sensualismo refinado do erotismo nem à excitação cafajeste da pornografia. Não se trata, pois, de uma estimulação dos sentidos, e sim uma espécie de protesto contra o sistema moral, contra as concepções dominantes de amor e de sexo, e contra o próprio mundo. Às vezes, a obscenidade toma o sentido de um culto rude e subversivo do prazer contra os tabus que impedem a plena realização da libido*.



Poesia Satírica



O desengano barroco tem como uma de suas conseqüências o implacável gosto pela sátira. Resposta a uma realidade que os artistas julgam degradada, a poesia ferina e contundente não perdoa nenhum grupo social. Ricos e pobres são fustigados pelas penas corrosivas de Góngora, de Quevedo, como mais tarde o fará o brasileiro Boca do Inferno. Esta ironia cáustica e por vezes obscena é traço marcante do barroco ibérico.
Quando retorna ao Brasil, já quarentão, em 1682, Gregório de Matos encontra uma sociedade em crise. A decadência econômica torna-se visível: o açúcar brasileiro enfrenta a concorrência do açúcar produzido nas Antilhas e seu preço desaba. Além disso, uma nova camada de comerciantes (em sua maioria, portugueses) acumula riquezas com a exportação e importação de produtos. Esta nova classe abastada humilha aqueles que se julgam bem nascidos, mas que, dia após dia, perdem seu poder econômico e seu prestígio.




ANTONIO VIEIRA (1608-1697)



Vida: Nasceu em Lisboa e veio menino (seis anos) para a Bahia com seu pai, alto funcionário da Coroa. Estudou no colégio dos jesuítas, onde brotaria sua vocação sacerdotal, ordenando-se aos 26 anos. Em 1640, prega o seu audacioso sermão Contra as armas de Holanda. No ano seguinte, já reconhecido, volta para Lisboa, tornando-se o grande pregador da Corte. Entre os seus aficionados, encontrava-se o jovem rei D. João IV. A pedido dele, executou várias funções políticas e diplomáticas.
Sentindo-se fortalecido, Vieira passou a defender abertamente o retorno dos judeus ("gentes de nação", como eram chamados) para que injetassem capitais na economia portuguesa. Embora apoiado por D. João IV e tendo a confiança dos cristãos-novos, foi duramente combatido pela Inquisição que terminou por indispô-lo com a autoridade real. Assim a revolução capitalista que ele propunha para o seu país também naufragou. Voltando ao Brasil, em 1652, numa espécie de exílio involuntário, fixou-se no Maranhão, onde despertaria o ódio dos colonos por sua encarniçada defesa dos índios. Por nove anos enfrentou os escravistas, terminando por ser expulso do Maranhão e recambiado para Lisboa, juntamente com outros missionários.





O Vigor da Oratória



Apesar do alto nível de sofisticação filosófica e teológica, Vieira prefere - ao pregar em público - deter-se nos "pormenores da vida", seja dos indivíduos, seja das sociedades, analisando as incontáveis paixões humanas, atacando os vícios (corrupção, violência, pedantismo, etc.), e elogiando as virtudes (religiosidade, modéstia, caridade, etc.). Isso lhe dá um enorme campo de assuntos e garante o caráter variado e inesperado dos sermões.




Bibliografia

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